Escolheu com delicadeza uma caixinha de papelão
colorido e fitas de seda onde acolheu algumas lembranças e sentimentos que
teimavam, vez por outra, em escapar.
Sonhos desidratados; um guardanapo de bar onde lhe
ofertaram um pequeno poema de Pessoa; uma rosa desidratada; uma pequena
embalagem de fósforos (mimo aos fumantes dum happy houer inesperado que
a fizera feliz); um saquinho plástico com um punhado de areia de praia visitada
a dois; um terço ofertado em proteção de um amor que não se concretizou;
algumas fotos recortadas; vida entre suspiros e surpresas.
Certo, nada a esconder, mas precisava preservar-se da
curiosidade indesejável dos que tentavam bisbilhar sua intimidade.
Sempre que abria sua caixinha, revivia momentos numa
overdose de encantamentos. Um caleidoscópio de emoções. Sem preocupações.
Mas o tempo, perdido no tempo a destacar folhas do
calendário, desbotava-se sem piedade.
Imprimiu rugas em sua face distanciada da juventude. Agendou
vulnerabilidades.
Esfarelou o quase relicário e esparramou seus
guardados no fundo do armário.
Seria dramático se não fosse, naturalmente, o caminho
inevitável do ser.
Aspirou suas lembranças e deixou-se conduzir pela
brisa da tarde até o anoitecer.
Acordei no chão sem nada entender até perceber que sofrera um desmaio.
Muitas perguntas sem respostas em busca por explicações.
Dia e hora, o que fiz ou por fazer, incógnitas desafiadoras naquele momento do não ser.
Memória sem registros recentes foi-se revelando aos poucos.
Em jejum, voltava de um exame de sangue. Hipoglicemia, talvez!
Levantei após um esforço além da imaginação (instinto de sobrevivência).
Agora, celular à mão, mensagens aos filhos, dores que se espalhavam pelo tronco e um edema na cabeça.
Rumo à emergência, UTI cardiológica, até que se chegou ao diagnóstico: minhas carótidas sensibilizadas fecharam-se ao trânsito de fluidez da vida: sangue impedido ao cérebro.
Marcapasso assentado, vida que atrela a fios. Vieram o cateterismo (sem necessidade de stent) e o abdômen inchado pelo mal estar da cama leito. Sonda nasogástrica para esvaziá-lo por dois dias.
De 15 a 30/10, (12 dias restrita ao leito em UTI cardiológica; 3 dias em quarto da mesma unidade).
Agora, renovando-me em aprendizados de primeira infância, como andar, até mesmo mastigação, etapas a vencer.
À casa em novos condicionamentos, inclusive fisioterápicos.