terça-feira, 2 de junho de 2020

MEMÓRIAS E INFÂNCIAS



Brigou pelo não ser
enquanto subia em direção ao estômago da mãe.
Talvez pretendesse esquivar-se da luz que a aguardava.
Não adiantou.
Tudo se resolveu na sala de parto.
A menina nascida e amada prosseguiu em missão.
Das primeiras idades
guardou o aroma da merendeira cor de rosa
a caminho do Jardim de Infância.
Passeou por muitas histórias,
Carochinhas e Aladim uma vez que
casinha e comidinha nunca lhe despertaram a atenção.
Da segunda infância,
o pique esconde no esconde-esconde do ser.
Acostumou-se aos tabuleiros de damas e ludos
até que a princesa adolescente despertou dentro de si.
A jovem ressurge em amores.
Troca o vôlei e queimada pelos óculos.
Provou com muito gosto as literaturas
(portuguesa e brasileira):
bons tempos, boas escolas.
Apegou-se às letras.
Tornou-se senhora de si e,
com o passar dos anos,
inquietou-se!
Pronta para explodir em versos,
percorreu nova trilha que mantivera em segredo:
reencontrou-se na maturidade do poema em tempos de outono.         

©rosangelaSgoldoni
28 05 2020
RL T 6 965 715

segunda-feira, 25 de maio de 2020

UM OLHAR DE ESPERANÇA



Caminhava...
Não era praia,
circulava no pátio do seu prédio
de onde vislumbrava um resquício de mata.
Observara o coqueiro em seu esplendor,
apesar do outono, 
quase inverno,
naquela manhã um tanto embaçada.
O mistério das suas folhas
meio pendentes,
meio altivas,
eram realçadas
pelo balançar ao sopro
da brisa leve e perfumada.
As maritacas sobrevoavam agitadas,
celebrando o ar puro que as envolvia  
em plena pandemia de vírus
(tempos de gente engaiolada em suas casas).
Ela caminhava,
ia e voltava
no concreto da marcha,
com um olhar de esperança...

©rosangelaSgoldoni
26 05 2020
RL T 6 958 379

segunda-feira, 18 de maio de 2020

UM TEMPO FELIZ






Era tão pouco tempo
que não dava tempo
do tempo passar.
Quando se dava conta
era passo contado
num sonho a guardar.
Fazendo de contas
contava estrelas
no céu a luzir.
E ao tempo contado,
deitado ao lado,
agradecia a sorrir.
Deu-se conta de que fora feliz!

©rosangelaSgoldoni
17 05 2020
RL T 6 951 222

segunda-feira, 11 de maio de 2020

RITUAL DE PASSAGEM



Tentava manter
a chama acesa.
Mente coração aquecidos.
A vida em combustão.
Explosão de sentidos,
em maturação:
seres divinos,
natureza espiritual.
Ritual de passagem à plenitude essencial.



©rosangelaSgoldoni
19 08 2019
RL T 6 944 607

quarta-feira, 6 de maio de 2020

POEMA CONTAMINADO







Acorda o verso para um mundo pandêmico.
Abre a cortina e descortina uma rua quase sem vida,
algumas idas e vindas pelo trânsito;
carros e ônibus
com suas janelas escancaradas.
O vírus,
liberto das amarras do ar refrigerado,
valsa sem rumo.
O homem,
gaiola e refém de si mesmo,
rende-se aos princípios da biologia
que ousou desrespeitar.
Inversão de valores e posição,
liberdade e prisão em discussão.
Um mundo novo a caminho ou
o descaso natural seguirá seu destino de destruição?
Os versos se organizam
e retornam à cama sem questionar.
Afinal, mais um poema não faz qualquer diferença.

©rosangelaSgoldoni
25 03 2020
RL T 6 939 691

domingo, 3 de maio de 2020

CASA, QUARTO E QUARENTENA



MENÇÃO HONROSA


CASA, QUARTO, QUARENTENA

Chego à janela e sigo com o olhar o caminhar de algumas pessoas. Predominantemente idosas, agem como se a convivência com o coronavírus fosse normal. Sem qualquer proteção, demonstram uma certa tolerância e intimidade com a pandemia.
O carro de som circula no asfalto lembrando a presença invisível do inimigo. Simplesmente ignoram.
Para onde vão? Talvez mercado, farmácia, quem sabe caminhar na praia numa cidade isolada ao trânsito para estranhos.
Teriam algum motivo especial ou simplesmente a satisfação pelo desrespeito às normas internacionais e recomendações vigentes no país?
Eu, em distanciamento social, obediente às orientações responsáveis; a família dentro do possível em resguardo, imagino-me presa num imenso engarrafamento seguindo o fluxo do trânsito na minha faixa de rolamento enquanto estranhos apressados trafegam pelo acostamento.
Sim, os mesmos que promoverão a desordem mais à frente prejudicando ainda mais o percurso normal no tempo.
Mas os “espertos” caminhantes de agora desconhecem os engarrafamentos da vida.
As dores de barriga, infartos e acidentes sejam cerebrais ou de rua, sinusites e chicungunhas continuam na pista como todas as outras patologias, donde se conclui que as doenças são PÚBLICAS e a permanência na rua poderá prejudicar qualquer atendimento de emergência aos necessitados não coronados. Além do contágio, o chamado “efeito colapso” das UTI’s.
Todos serão prejudicados.
Se você é um idoso lúcido e orientado, procure ficar em casa o maior tempo possível. Sei que é difícil, afinal, como afirmou Clarice Lispector, “o mais difícil é não fazer nada: ficar sem fazer nada é a nudez final.” (Clarice Lispector)

©rosangelaSgoldoni
RL T 6 936 052
04 04 2020

quarta-feira, 29 de abril de 2020

DA QUARENTENA AO POEMA



Aquela solidão não agendada
andava desconfortável.
Obedecia aos chamados do racional constituído
em conselhos de pressa por isolamento de um vírus.
Entregou sua liberdade às rédeas
de alguns sintomas e sentou-se ao abrigo da informação.
Esperou, esperava...
Sonhava com uma vacina que libertasse seu mundo de infectados.
Soprou letras sobre uma tela escura e,
num passe de mágica,
a despeito da máscara,
filtrou versos e ventilou um poema.
Sobreviveu à quarentena!

©rosangelaSgoldoni
28 04 2020
RL T 6 932 262

MEMÓRIAS E INFÂNCIAS

Brigou pelo não ser enquanto subia em direção ao estômago da mãe. Talvez pretendesse esquivar-se da luz que a aguardava. Não ad...