segunda-feira, 4 de maio de 2026

O INEVITÁVEL AMANHECER




Escolheu com delicadeza uma caixinha de papelão colorido e fitas de seda onde acolheu algumas lembranças e sentimentos que teimavam, vez por outra, em escapar.

Sonhos desidratados; um guardanapo de bar onde lhe ofertaram um pequeno poema de Pessoa; uma rosa desidratada; uma pequena embalagem de fósforos (mimo aos fumantes dum happy houer inesperado que a fizera feliz); um saquinho plástico com um punhado de areia de praia visitada a dois; um terço ofertado em proteção de um amor que não se concretizou; algumas fotos recortadas; vida entre suspiros e surpresas.

Certo, nada a esconder, mas precisava preservar-se da curiosidade indesejável dos que tentavam bisbilhar sua intimidade.

Sempre que abria sua caixinha, revivia momentos numa overdose de encantamentos. Um caleidoscópio de emoções. Sem preocupações.

Mas o tempo, perdido no tempo a destacar folhas do calendário, desbotava-se sem piedade.

Imprimiu rugas em sua face distanciada da juventude. Agendou vulnerabilidades.

Esfarelou o quase relicário e esparramou seus guardados no fundo do armário.

Seria dramático se não fosse, naturalmente, o caminho inevitável do ser.

Aspirou suas lembranças e deixou-se conduzir pela brisa da tarde até o anoitecer.

 

Rosângela de Souza Goldoni

08 03 2026

RL T 8 619 220

 

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