segunda-feira, 4 de maio de 2026

O INEVITÁVEL AMANHECER




Escolheu com delicadeza uma caixinha de papelão colorido e fitas de seda onde acolheu algumas lembranças e sentimentos que teimavam, vez por outra, em escapar.

Sonhos desidratados; um guardanapo de bar onde lhe ofertaram um pequeno poema de Pessoa; uma rosa desidratada; uma pequena embalagem de fósforos (mimo aos fumantes dum happy houer inesperado que a fizera feliz); um saquinho plástico com um punhado de areia de praia visitada a dois; um terço ofertado em proteção de um amor que não se concretizou; algumas fotos recortadas; vida entre suspiros e surpresas.

Certo, nada a esconder, mas precisava preservar-se da curiosidade indesejável dos que tentavam bisbilhar sua intimidade.

Sempre que abria sua caixinha, revivia momentos numa overdose de encantamentos. Um caleidoscópio de emoções. Sem preocupações.

Mas o tempo, perdido no tempo a destacar folhas do calendário, desbotava-se sem piedade.

Imprimiu rugas em sua face distanciada da juventude. Agendou vulnerabilidades.

Esfarelou o quase relicário e esparramou seus guardados no fundo do armário.

Seria dramático se não fosse, naturalmente, o caminho inevitável do ser.

Aspirou suas lembranças e deixou-se conduzir pela brisa da tarde até o anoitecer.

 

Rosângela de Souza Goldoni

08 03 2026

RL T 8 619 220

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

FÉ E ESPERANÇA RENOVADAS



 Aquela síncope,

até então desconhecida,

reservou-lhe um inusitado de vida:

a passagem determinante por uma UTI cardiológica.

Por noites e noites infindáveis,

distante dos sonhos e do sono,

perdeu-se entre fios e monitores.

Acessos a transportar o soro vital

no gotejar de um tempo sem previsões.

Cercada por especialistas,

uma leve pressão sobre o pescoço,

alguém exclamou:

- a carótida fechou!

Diagnóstico celebrado,

entre tomos, ressonâncias e eletros.

Mais adiante,

o coração festejou sua estabilidade

constatada pelo catéter invasivo.

Mais do que sobreviver,

viver tornou-se um brado silencioso de resistência

ao frio e aos monitores em permanente vigilância.

Num marcapasso quase poético,

o verso ressuscitou sem desmaios

numa viagem de fé e esperança.


©rosangelaSgoldoni

15 12 2025

RL T 8 564 410

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

APRENDIZADOS


 

Há 73 anos, entre 11 e 11.30h, eu não queria chegar.

Uma enfermeira enganchada na minha mãe, por ordem da obstetra, entregou-me à vida.

Cheguei cianótica em meio à festa e ao calor de um dia 31 de dezembro.

Uma longa estrada percorrida entre atalhos, tropeços, erros e acertos.

Disposta a aprender, ainda busco ensinamentos de vida.

Que assim seja, enquanto Deus quiser!

Feliz Ano Novo!


©rosangelaSgoldoni

31 12 2025 10.00H

RL T 8 528 315



segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

ALGUNS HAICAIS



Dança a trança

no ventar do inverno

triste sorriso.

 

Encanto lilás

num jardim colorido

sol em crescente.

 

Mergulho n’alma

suspiros afogados

sonho desperto.

 

Canto celebrado

vesperal primavera

pássaros em paz.

 

Estrelas dançam

balé no infinito

lua crescente.

 

©rosangelaSgoldoni

01 12 2025

RL T 8 502 410


sábado, 1 de novembro de 2025

Laços de vida nos fios de um marcapasso


 

Acordei no chão sem nada entender até perceber que sofrera um desmaio.

Muitas perguntas sem respostas em busca por explicações.

Dia e hora, o que fiz ou por fazer, incógnitas desafiadoras naquele momento do não ser.

Memória sem registros recentes foi-se revelando aos poucos.

Em jejum, voltava de um exame de sangue. Hipoglicemia, talvez!

Levantei após um esforço além da imaginação (instinto de sobrevivência).

Agora, celular à mão, mensagens aos filhos, dores que se espalhavam pelo tronco e um  edema na cabeça.

Rumo à emergência, UTI cardiológica, até que se chegou ao diagnóstico: minhas carótidas sensibilizadas fecharam-se ao trânsito de fluidez da vida: sangue impedido ao cérebro.

Marcapasso assentado, vida que atrela a fios. Vieram o cateterismo (sem necessidade de stent) e o abdômen inchado pelo mal estar da cama leito. Sonda nasogástrica para esvaziá-lo por dois dias.

De 15 a 30/10, (12 dias restrita ao leito em UTI cardiológica; 3 dias em quarto da mesma unidade). 

Agora, renovando-me em aprendizados de primeira infância, como andar, até mesmo mastigação, etapas a vencer.

À casa em novos condicionamentos, inclusive fisioterápicos.

Ao conforto de Deus, da família e amigos dizemos

AMÉM!

©rosangelaSgoldoni

31 10 2025

RL T 8 475 847

sábado, 11 de outubro de 2025

MINHAS CRIANÇAS EM MIM

 

Minhas crianças são tantas,

são ternas,

amadas;

reservas dos melhores vinhos e safras,

frutificações multiplicadas

em gerações de amor.

Nós,

em  mim,

desde 1952!

 

©rosangelaSgoldoni

12 10 2025

R L T 8 456 210


quarta-feira, 1 de outubro de 2025

NUM TEMPO FEITO DE QUASES...

 

Quase verão.

Quase Natal.

Quase Ano novo outra vez.

Outubro reestreia em sol de janeiro,

suores de fevereiro,

anúncios de liquidação.

Os ponteiros,

acostumados ao tempo,

nem percebem tamanha aceleração!

Entre quases,

a idade avança no calendário da vida

ainda ciosa de seus compromissos.

Honras à lucidez reinante

e à mobilidade

quase sentada no tamborete ao lado.

Um brinde ao tanto que se viveu e

ao desconhecido futuro,

provável,

desnudo,

roupagem de sonhos.

 

©rosangelaSgoldoni

01 10 2025

RL T 8 447 194


O INEVITÁVEL AMANHECER

Escolheu com delicadeza uma caixinha de papelão colorido e fitas de seda onde acolheu algumas lembranças e sentimentos que teimavam, vez por...